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domingo, 29 de janeiro de 2017


A minha alma tá armada e apontada
Para cara do sossego!
Pois paz sem voz, paz sem voz
Não é paz, é medo!
Às vezes eu falo com a vida
Às vezes é ela quem diz
"Qual a paz que eu não quero conservar
Pra tentar ser feliz?"
As grades do condomínio
São pra trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que tá nessa prisão                  

O Rappa



 "Arcos do Jânio" acesso à Av. 23 de Maio - São Paulo, com tapumes, tudo pronto para execução







Não lembro se já disse, então: não tenho conta no Facebook.

Acompanho notícias pelos blogs informativos que confio, e dou umas olhadinhas no Facebook de alguns amigos, quando me convidam a conversar a respeito.

Vou me inteirando do que aconteceu no planeta e na cidade nos tempos recentes, e vou confessar que isso dá um trabalho do cacete, além de colocar à prova os resultados de todos os exercícios de meditação, tai chi chuan, espiritualismo, posturas de fé na humanidade, tudo isso que em algum momento as pessoas de minha geração experimentaram ou botaram uma fé.

Noutro dia minha amada amiga, ficou numa saia justa.

Um colega com quem ela tem alguma afinidade, fez uma postagem sobre qual vegetação seria a mais apropriada para ocupar os grafittis dos "arcos do Jânio", algumas opiniões ali surgiram nesse contexto, porém ela -  como diziam antigamente quando alguma criança aparecia no meio de uma conversa de adultos - estava descalça, e participou da conversa muito sinceramente dizendo que preferia os grafittis a qualquer vegetação.

Seu amigo de Facebook, na sequência fez dois comentários, o primeiro dizendo que pra tudo tem local e aqui ali grafitis não era um local apropriado. Diante de outros comentários que tentaram enxovalhar minha amiga, o dono do post interveio informando ali se tratar de uma discussão técnica e não política.

Bem, minha amiga é uma pessoa educada e ponderada, e digamos que estas não são afinidades que nos une, sendo assim ela se desculpou e saiu da conversa, parece que isso é um código de ética no Facebook.

Quanto a mim, fiquei digerindo a questão.

Primeiro: o que é ou não apropriado ao quê.
Segundo: há que se perguntar em qual enredo técnica e politica se convergem ou se excluem, e por quê.
Terceiro: o atual gestor (sic) da cidade, grafittis não são apropriados a quase todos os lugares, afirmação essa que pessoas, como a citada, compartilham.
Questiono se compartilham da opinião, ou se compartilham da febre insana em querer apagar real e simbolicamente, tudo o que foi construído em favor da cidade, e principalmente pela inclusão de seus cidadãos, e sinceramente, questiono o por quê.
Tal qual, o amante que inseguro de seu desempenho, e sabidamente inferior ao seu antecessor, tenta em vão destruir,  matar.

Lembrei de Chico Buarque

Ele era mil, tu és nenhum
Na guerra és vil, na cama és mocho
Tira as mãos de mim, põe as mãos em mim
E vê se o fogo dele guardado em mim
Te incendeia um pouco

Éramos nós, estreitos nós
Enquanto tu, és laço frouxo
Tira as mãos de mim, põe as mãos em mim
E vê se a febre dele guardada em mim
Te contagia um pouco.

Como já disse em outro post, não há tinta cinza o suficiente para apagar as cores que compõem  a diversidade desta cidade, pois a cada mural apagado outro nascerá, porque são frutos das pessoas, dos artistas que se expressam em formas e em cores.

Não haverá paz na alma de quem já sabe em que estruturas se apoiam os podres poderes e o de seus asseclas.

Às vezes eu falo com a vida, às vezes é  ela quem diz
"Qual a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz?"

Tú és mocho e vil, mas a sociedade é fogo,  é vida em estágio puro.

Sobre técnicas, política e ética, conversaremos depois.






















terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Eu apoio o Grafitti na cidade, eu apoio o som das vozes roucas que reaprenderam a cantar, eu apoio as danças nas ruas, eu apoio a vida e a diversidade.


Assuntos prementes fizeram com que  a conversa com minha amiga (?!) ficasse momentaneamente interrompida. Depois eu conto.

Neste momento o assunto é outro, e grave, gravíssimo.

Vamos lá, direto e reto.

Falamos de poder, podres poderes, intolerância, ódio, inocência e ignorância.

É comum quando um casal, seja qual for sua composição, se separa, um agredir ao outro: são livros rasgados - inclusive os preferidos, daqueles com maior significado, discos, DVD´s, taças que voam, roupas que se rasgam.
Os mais saudáveis ficam por aqui, o que buscam, buscamos,  é matar em si e no outro todas as referências afetivas, a partir de tudo o que um dia possuiu um significado, talvez, uma forma de aniquilar um sentimento de amor, ódio, rejeição, inveja, seja lá o que for, o que se busca é conter a dor, e resignificar a vida, nem que seja a partir do caos.

Quem nunca?

Tenho visto nos noticiários as ações de um recém eleito a governante mas que,  porém, realmente se comporta como Junior.

Ignorante culturalmente? sim.
Jeca total? sim.

Mas, de uma coisa a pessoa entende: $$$$$$
Sendo assim, não seria somente a "jequice" o fator preponderante para que transformasse em cinza painéis artísticos distribuídos pela cidade, alguns deles não somente de valor artístico, como também monetário. 

Painéis que atraíram em algum momento a visita de turistas tanto internos quanto externos à cidade, o que significa grana em movimento.
A pessoa pode ser tosca, mas não é uma anta completa.

Aí despintou, arrancou dos muros da cidade tudo aquilo que, em cores, um dia significou a voz de seu povo, a dignidade de grupos de artistas que se reconheceram na capacidade de tornar bela a cidade tão cinzenta com seus muros e edifícios, com suas poucas extensões de parques e praças, e por isso,  incapazes de fazer sonhar pelos olhos e por todos os sentidos, artistas que trouxeram a possibilidade de fazer sonhar, refletir, aos cidadãos que passam rapidamente. 

A arte trouxe voz a quem a constrói e vida a quem dela se deleita, os não lugares passaram a ser locais de prazer.

E isso foi insuportável para quem afirmou (segundo notícias de jornais) que irá "governar para a maioria silenciosa e não para a minoria ruidosa", creio que isso expressa a que veio: fazer calar e manter o silêncio monocórdico, a partir do eixo monocromático.

Isso sem falar nas ações a respeito de pessoas em situação de rua, extinção de programas sociais inclusivos como o de Braços Abertos, cuja abordagem específica ficará para outro momento, porém, claro está que se trata de um pacote, um combo.

Depois de despintar, transformar tudo em cinza, a notícia de hoje é a que a pessoa admitiu que ficou muito cinza, e vai mandar colorir novamente (sabe-se lá como e a que custo e gosto).

Ficou claro como um céu azul de inverno, que ao remover os grafittis o que se buscou foi apagar a marca de seu antecessor, e com ela todo o significado do que se propôs aquela gestão: inclusão social, voz a quem a vida ou a estrutura social injusta um dia calou, esperança a quem tem dificuldades de sair de sua viagem-pesadelo, dignidade a quem tem orientação de gênero diferente daquela tida como a "natural" segundo interpretações carolas de um livro que anda muito em moda no círculo da intolerância e do ódio, por mais paradoxal que isso possa parecer.
Agora, está em curso um projeto que transformará a cidade, não mais no local de convivência que se buscou com a construção de novas praças e seu aparelhos de ginástica, ou opções de lazer gratuito, o que se projeta no futuro é uma cidade mercado, tipo "famiglia vende tudo": o laguinho, as borboletas do jardim, as flores e suas cores, o sol e a brisa, de brinde podem levar as crianças, os velhos e os desafortunados, está também no "kit" a dignidade de quem ousou acreditar que a vida é sonho.

Mas... só que não.