por Barbara Luz
Caía a tarde quando entrou em minha vida...na sua era sol poente.
Lembro o dia em que juntamos meus pincéis e suas lentes.
As telas espalhadas ao chão e a cama em direção às estrelas.
Na manhã seguinte raios de sol, filtrados pelo vidro da janela,
iluminavam parte de meu rosto e de meus ombros,
de pintora me fiz em musa, só para ser captada por sua objetiva.
Dona absoluta de mim, me entreguei a você de maneira inconteste
Entre uma fotografia e outra, registrei minha passagem nas telas,
nelas depositei toda a energia da vida e do meu afeto por você.
Por amor, prazer e talvez uma dose de vaidade
fiz de meu corpo seu brinquedo, de minhas formas um enredo para seu ensaio
Não imaginava que esses momentos de intimidade
seriam minha porta de entrada para a galeria de arte,
festa em homenagem ao trabalho do grande fotógrafo.
Minhas formas, agora públicas, transformariam em
curiosidade a minha arte, era o que me dizia, e assim foi.
Passaram-se breves os anos, minha arte florescia
suas fotografias se acumulavam, enquanto seus cabelos
tornavam-se tão claros quanto algumas de minhas telas.
O tempo passou inexorável.
O que ainda ontem era um mistério a se revelar,
era então um retrato velado em seu olhar.
Por maior que fosse nosso amor, e seus frutos em arte
Não sobreviveria ao seu lado, dividindo com você
novas admiradoras por quem sentia o prazer viril em controlar, tutelar.
Sua natural crueldade seria minha destruição.
Estar sem sua vida passou a ser como entrar nua em um roseiral, sem as rosas.
A fim de conter meu sangue, me fiz distante, quilômetros distante.
O Sol desse lugar longínquo estancou minhas róseas lágrimas,
e fez brotar em meus quadros novas paisagens.
Você em mim continuou a existir, e assim foi até o fim,
no dia em que adormeceu em meus braços para eternidade.


