Era um domingo do mês de janeiro, verão no Patropi e véspera do primeiro dia de férias de Silvia.
Silvia bem que merecia umas férias tranquilas. A um custo razoável alugara uma chácara nos arredores da cidade para ali passar alguns dias com seus filhos Lilica e Fernando e sua neta Clarinha, filha da Lilica.
Mas Lilica não estava nem aí com a hora do Brasil, de modo que Silvia é quem era a mãe de fato da Clarinha.
Silvia com seu astral imbatível, apesar de todas as agruras que a vida lhe causara ao longo de seus quarenta e pouquinhos anos, é a alegria de sua família e de seus amigos. Não há uma reunião sequer que ela não faça rir, às vezes às gargalhadas, mesmo os espíritos mais rígidos e até sombrios.
Bem... na verdade nem todos os espíritos sombrios se riem das estórias de Silvia. Lá no seu trabalho de onde tira a sobrevivência dela, dos filhos e neta, existe um chefe.
Sabem todas as características das mais alegóricas que buscamos para ilustrar a figura de chefe? Pois Geraldo é assim, esse chefe do nosso imaginário. Pasmem, ele existe e nessa época era o chefe da Silvia.
Com o Geraldo não tinha acordo, Silvia se ausentava para levar Clarinha ao médico, e ele ignorava todas as condições de acordo coletivo sindical, que permitia o acompanhamento de filhos ao médico.
Mas afinal Silvia tem a guarda de Clarinha... como assim?!
Assim que Geraldo não tinha dúvidas, Silvia atrasava ou faltava, apresentava atestado médico e Geraldo do alto de seu micro poder, mandava ver: falta injustificada.
Para quem não conhece esse vocabulário, eu explico: falta injustficada significa, desconto das 8 horas do dia, mais o final de semana remunerado e ainda o abatimento de um percentual sobre as férias, de forma que a pessoa além de receber seu salário com um montão de descontos, ainda deixa de ter direito aos 30 dias legais de férias anuais.
Esse era a figura que Silvia conviveu por um ano inteirinho para usufruir de suas justas férias, ainda que reduzidas.
Porém, na semana anterior ao período de férias, aconteceu um episódio que nos faz rir, mas que não fez ao Geraldo e na verdade, naquele momento, nem à Silvia que protagonizou o caso.
Silvia cansada das vilezas de Geraldo, e após inúmeras tentativas de entendimento pelo diálogo, foi à luta por seus direitos.
Como resultado de conversas com o representante sindical de sua área, preparou uma tabela, contendo todas as informações sobre suas ausências, juntou os documentos que comprovavam a legalidade de tais ausências e apresentou tudo na área de recursos humanos da empresa.
Resultado: barraco geral!
Geraldo tremia suas bochechas rosadas - a bem da verdade roxas - que faziam sacudir seus bigodes, sua pele oleosa fazia escorrer pela testa grossas e nojentas gotas de suor, que causavam ainda maior aspereza ao seu semblante.
Isso sem falar no funga-funga causado pela rinite, companheira fiel do Geraldo, que o fazia manter nos bolsos um velho e remelento lenço de pano, e que nesse momento trazia seguro nas mãos na vã tentativa de absorver a nascente de suor.
Silvia, com sua inteligência, determinação, beleza e um certo jeito debochado, já havia feito tremer de prazer alguns homens, mas de ódio talvez fosse essa a primeira vez, e, a um só tempo, vivia e observava esse momento.
Geraldo, com suas pernas trêmulas, o velho lenço na mão, protegido por detrás de sua burocrática mesa, os olhos miudinhos atrás dos óculos, o dedo em riste, ordenava aos gritos à Silvia para que se sentasse.
Geraldo era patético, e Silvia altiva como convém a uma guerreira.
— Não sou criança, sento quando quero!
Geraldo insistia no imperativo, e Silvia com seu olhar em brasa, e a razão que escorria por sua boca em forma de palavras, calmamente o fez entender que não havia mais nada para conversarem sobre o assunto e, que se ele sentia mesmo prazer em gritar, que fosse gritar com sua mulher.
Naquele momento, Geraldo se transformou, Silvia parecia ter atingido algo recôndito naquele ser; o homem inflava a ponto de explodir... de súbito calou a voz e se recolheu a um profundo silêncio.
O silêncio tenso esclareceu a todos, nenhuma palavra seria capaz de expressar aquela situação, não haveria mais qualquer possibilidade de diálogo ou convivência.
E foi assim que Silvia conseguiu sua ¨"carta de alforria" para mudar de área na empresa, recuperou parte de seus dias de férias, além do salário que havia sido subtraído por pura maldade de Geraldo.
E Geraldo? Ele ficou lá fingindo não perceber os risinhos marotos de seus subordinados, e sem saber - à medida que sua pouca inteligência não lhe permitia - que sua autoridade é como um frágil cristal, e que a partir daquele momento já apresentava pequenas fissuras, invísíveis talvez aos olhos mas fatais diante da passagem implacável do tempo.
Pobre dele... pobre deles... de todos os Geraldos que encontramos pela vida.
E assim, Silvia se absorvia de suas férias e compartilhava com Lilica a alegria de sua liberdade profissional, quando tocou o celular, esse instrumento invasivo e cultuado no mundo contemporâneo.
— Alô?! quem? Márcia? Olá, como você está? O quê? para que você quer que eu volte urgente? O que está acontecendo com você garota? Mércia?! que Mércia? ah, sim... sua irmã. Que foi? Bom... se ela não está doente e nem morreu, porque aí sim você talvez precisasse de uma força, não tem urgência nenhuma que vai me tirar daqui. Amanhã preciso resolver algumas coisas na cidade e aí conversamos.
Bem, vamos às apresentações:
Márcia era amiga de Silvia há 30 anos, ou seja praticamente desde a infância. São Paulo, apesar de seu gigantismo e certa aridez afetiva, ainda permite esses vínculos, principalmente nos bairros, onde as pessoas nascem, crescem e vivem suas vidas.
Entretanto, Mércia era apenas a irmã de Márcia nenhuma afinidade com Silvia, de forma que essa urgência em lhe falar a deixou intrigada.
Na segunda-feira de manhãzinha, Silvia já ligava para Márcia a fim de saber que tal de assunto urgente era esse, pelo qual estavam as irmãs dispostas a interromper o seu sagrado final de semana.
A estória era que Mércia suspeitava fortemente da traição de João, seu marido, e queria por todo meio que Silvia ficasse de tocaia na farmácia de João a fim de descobrir a amante e o endereço de sua residência.
Silvia ouvia incrédula a "urgência" de Mércia. Como podia essa mulher que nem sua amiga era, se valendo da amizade da irmã, pedir algo desse tipo a ela que já tinha tantos problemas a resolver com sua própria vida?
Mércia é uma mulher como tantas outras, casada com João há quarenta anos, ele com a farmácia, ela cuidando da casa e fazendo costuras para reforçar o orçamento, criaram e educaram os dois filhos.
Agora que construíram um patrimônio modesto, e quando ela começava a sentir que a velhice lhe apresentava em recompensa uma total falta de atratividade, ele, João, não tinha o direito de se meter com nenhuma outra mulher.
Viveram juntos até aquele momento, e se fosse para serem infelizes que continuassem a ser, porém, juntos!
Por essa razão ela insistia para que Silvia descobrisse o endereço da "sirigaita".
Silvia ainda incrédula porém atenta, questionava por quais razões Mércia queria saber o endereço da moça, não bastava saber que ela existia? Mas Mércia, por mais que Silvia insistisse não cedeu a nenhum argumento, não apresentou razões, e permaneceu empacada, querendo saber qual era o endereço de sua rival.
Escolada pela vida, Silvia não ia querer esse envolvimento, sabia que existem algumas pessoas que por qualquer quinhentos reais dão cabo de uma vida.
Ia ela saber das reais intenções de Mércia? E se ela estivesse querendo dar um fim na moça? Não... definitivamente não seria ela, Silvia, quem iria entregar o serviço e deixar uma pessoa, que sequer conhecia, nas mãos de um matador.
Silvia olhava nos olhos de Mércia e via a dor e o descontrole, causados pela rejeição e traição, e talvez também pela possibilidade de neste momento, em que a juventude lhe escapava, ter de ficar sozinha e sobretudo ser forçada a dividir seus parcos bens.
Apesar do "não" definitivo de Silvia, Mércia fez um pedido: apenas iriam juntas até a farmácia do João para observarem. Sendo apenas isso, e pela amizade que tinha pela irmã, ela concordou e partiram as duas no carro de Silvia.
Já na rua, próximo à farmácia, Silvia tomou um susto quando viu Mércia deitar o banco, camuflada por uma peruca loira e uns óculos escuros.
Não era possível estar vivendo aquela situação ridícula, e ainda no primeiro dia de suas férias! Não... ela deixaria Mércia em casa entregue à sua dor, e voltaria correndo para a chácara e lá ficaria acolhida por sua família.
Silvia observou João na farmácia: o olhar perdido, a cabeça pendida apoiada pelas mãos, cujos braços eram sustentados pelos cotovelos apoados no balcão.
Definitivamente, não parecia alguém que vivia uma paixão extraconjugal, era um homem triste.
Foram e voltaram com o carro, e João permaneceu preso a sua solidão.
De volta à casa, Silvia ratificou tudo o que já havia dito: não atenderia ao pedido de Mércia, mas quem sabe Mônica, amiga comum dela e Márcia, talvez ela tivesse menos escrúpulos.
Assim, Mônica se uniu ao grupo, foi informada do assunto, e Mércia esclareceu seu plano: bastava ficar na padaria, defronte à farmácia, disfarçada com a peruca e os óculos escuros.
Mônica manifestou a possibilidade de aceitar o trabalho, mas de cara precisaria de dinheiro para condução e refeição, para isso Mércia disponibilizou vinte reais por aquele dia.
Silvia deu uma carona para Mônica, que queria fazer uma prospecção do local, antes de efetivamente iniciar o trabalho. E assim, as duas transformaram os vinte reais em cervejas que beberam na padaria, observando o pobre João que mantinha sua solidão: nem cliente e nem amante.
E as duas riram-se muito de toda aquela ridícula situação.
O dia terminou e Silvia finalmente pode voltar para suas férias.
Passaram-se semanas, Silvia lembrou do episódio e buscou saber junto à Márcia como havia se encerrado aquele caso.
Márcia e Mércia não estavam se falando, romperam a amizade de irmãs. Mércia contratou outra pessoa para o serviço e, juntamente com ela, ficou de plantão na padaria, com seus vestidos de florzinhas, perucas loiras e óculos escuros.
Julgando-se observadoras eram elas observadas, e não perceberam que eram seres absolutamente estranhos àquele ambiente, onde transitavam mulheres e homens do bairro que começaram a desconfiar se aquelas mulheres não seriam policiais femininas em investigação à "boca de tráfico" que existia quase ao lado da farmácia.
As moças, na verdade senhoras, tão preocupadas com a amante de João não se deram conta do movimento do tráfico, bem debaixo do nariz.
E numa inversão total do sentido de proteção do estado, ambas mulheres foram presas e sofreram um interrogatório feito por policiais que ali apareceram com uma viatura, acionados pelo comércio das drogas, e tiveram de explicar o que faziam ali plantadas na padaria, tão discretas quanto alguém vestindo um terno amarelo-gema num velório.
Mércia não suportou a humilhação e, talvez, para que ela própria pudesse de algum modo esquecer o que havia acontecido, rompeu com a irmã posto que ela era testemunha do ridículo por que passou.
João e Mércia continuam casados, ele na farmácia e ela na costura.
A amante, diz-se que era uma mulher nem tão jovem, mas atraente para sua idade, seu endereço ninguém jamais soube, e depois do sucedido não foi vista na farmácia do João, se é que algum dia lá pôs os pés.
Silvia já comemora um ano sem o Geraldo, e às vésperas de suas férias, entre uma cerveja e outra, entre um caso e outro de cada uma de nós, nos conta essa estória.
Como diria Nelson Rodrigues: A Vida como ela é.